quinta-feira, 18 de março de 2010

Dan, Ela e ele

Olha para o lado. De fato a visão era alucinante. A quantidade de pessoas ali naquela praça, todas vestidas de azul, protestando... Gritos de guerra, palavras de ordem... E ele ali, diante da multidão, junto com seu melhor amigo. Sentia um misto de orgulho e inveja naquele momento, por mais que estivesse adiante daquilo, com todos caminhando atrás dele sabia que não era a ele que seguiam, e sim a seu amigo. Daniel, como era um líder nato, as pessoas se sentiam impelidas a segui-lo e dar a vida por seus ideais. Afinal não era o mesmo que ele estava fazendo ali? Lutando pelos sonhos do Dan? O Robin, o sidekick, o ajudante... Nunca teve coragem para fazer o que Dan fazia, mas se sentia confortável estando ao lado dele, seguindo os sonhos dele.

Ali, ao lado do Dan ele era importante. Era o melhor amigo do revolucionário, o conselheiro, o braço direito... era assim que todos o chamavam... mas no fundo sabia que era somente mais um amargurado sem vocação para líder e que se agarrava aquelas sobras de fama que o amigo deixava. As pessoas o admiravam, o invejavam, queriam esta no lugar dele, ser o que ele era... A quem estava enganando, era somente mais um na multidão, o líder era Dan... os jornais diziam o nome dele e não o seu... as garotas suspiravam por Dan, principalmente Ela.

A, como a natureza do homem é medíocre... mesmo que enumerasse todos os motivos por que invejava Dan, nenhum seria mais forte do que o desejo que sentia por Ela. E não era amor, era o mais carnal dos desejos, não queria casar-se com Ela, não queria ter filhos, queria somente te-la em sua cama, aproveitar todas as possibilidades daquele corpo... Dan a amava... Ela amava Dan... Ela e ele nasceram um pro outro...

Os pensamentos foram afastados pelo avanço do exército. Bombas de lacrimogênio, balas de borracha... Dan não desistia, gritava e incitava o povo a permanecer, não recuar... A adaga de prata foi tirada do bolso, no meio da confusão ninguém veria quem disferira o golpe, foi o que ele pensou enquanto buscava a adaga no meio de suas coisas. E de fato ninguém viu... Num golpe rápido a voz do líder da rebelião foi calada... sem ninguém para os manter ali todos se dispersaram... Agora era só voltar para casa e consolar Ela... e quem sabe finalmente ter aquele corpo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Deus não manda ninguém para o inferno

Estava conversando com um amigo meu há alguns dias atrás. Estávamos em uma conversa animada que mudava constantemente de assunto, como sempre acontece quando dois amigos conversam. Em determinado momento a conversa rumou para o campo da religião. É um ponto complicado de se discutir, ainda mais quando temos dois extremos: um ateu convicto, meu amigo, e um católico praticante, no caso eu. Durante a conversa uma frase emitida por ele ficou gravada em minha mente: como você quer que eu acredite em um Deus que diz te ama, mas te mandará para o inferno, para um mar de tortura e penações se você não fizer o que ele quer? Se esse é o Deus que você acredita, eu passo a minha vez e fico com minha total incredulidade. 

Na hora eu não respondi nada, acho que naquele momento eu não conseguiria formular um contra-argumento que fosse realmente convincente, ainda mais diante de alguém com uma opinião tão forte e um intelecto superior. Mas confesso que fiquei pensando, durante algumas horas, e não consegui encontrar resposta. Consegui encontrá-la enquanto dirigia meu carro no outro dia, um sábado de manhã, rumo à oficina. Deus não manda ninguém para o inferno. São João nos diz em uma de suas cartas: quem não ama, não conhece a Deus porque Deus é amor. Deus nos ama de forma incondicional, Ele é o amor. Ele nos ama da forma como somos: pecadores, omissos, fúteis... não importa qual o nosso pecado, Ele nos ama e nos perdoa. Na condição de pai amoroso Ele nunca permitiria que um de seus amados filhos fosse mandado para um local de sofrimento, o amor não permite que vejamos alguém que amamos sofrer.  

Meu amigo talvez nunca entenderá isso, mas somos nós mesmos que nos condenamos ao inferno. Deus nunca nos obrigou a nada, uma prova disso é o livre arbítrio. O que Ele fez foi somente nos dizer: este é o certo e este o errado, cabe a você escolher. Na qualidade de pai amoroso Ele nos instruiu sobre o que era certo e o que era errado. O reino de Deus é um reino de amor, Ele nos perdoa a todo instante porque nos ama, mas nós não conseguiremos entrar no reino dele se não aprendermos a encarar o fato de que somos pecadores, de que temos atitudes erradas. Nós não conseguiremos entrar no reino de Deus, não por causa Dele mas por nossa causa. Nós não vamos querer entrar, não vamos gostar. Imagine, o reino de Deus é um local onde o amor, o perdão e a aceitação são as leis máximas. Se não sou capaz de me aceitar como pecador para a partir daí mudar minhas ações, se não sou capaz de perdoar o próximo pelas falhas dele, e de amar incondicionalmente a mim mesmo e ao próximo eu não serei capaz de conviver com pessoas assim e nem aceitar o amor de alguém que me ama assim.