Diálogo, diálogo... diálogo! Tudo dialoga entre si. Provavelmente você leu esta informação com um pequeno erguer de sobrancelha, mas que jeito de começar um texto, mas logo a partir de suas experiências de mundo você traçou diálogos com outras informações em sua mente para atestar a veracidade de minha afirmação. Interessante não?
Estudos sobre o diálogo entre diversos textos são encontrados na obra de Bakhtin, que teve suas idéias estudadas por Fiorin (2006) (fonte da qual se utiliza esse texto). Em um pequeno resumo esses estudos mostram que a linguagem não é formada somente na estrutura do diálogo face a face, mas por todos os textos que o indivíduo leu e experiências pelas quais passou. Aquilo que falamos é formado por todos os outros diálogos com os quais já tivemos contato. Tome por exemplo esse texto, ele abre diálogo para a teoria Bakhtiniana. Um texto pode abrir diálogo para várias formas de informação.
Um outro exemplo, e que será o objeto de análise dessas parcas linhas, é o texto literário. Ele abrirá diálogo com infinidades de outros temas, formados pelo conhecimento de mundo do autor. Obviamente para perceber estes diálogos é necessário conhecer tais temas.Assim, como de nada adianta ter um enorme conhecimento de teoria sem mostrar como ocorre na prática, vou tentar demonstrar como ocorre isso na prática. Um exemplo que demonstra com extrema perfeição esse diálogo é “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, livro que estive lendo recentemente por motivos que não cabem ser escritos aqui. O livro retrata a história de Fabiano e sua família (sua esposa Sinhá Vitória, seus dois filhos que não possuem nome e sua cachorrinha Baleia) e sua vida pobre e miserável pelo sertão. E aqui, antes de continuar a explicar o diálogo abrirei um parêntese para alguns pontos muito interessantes sobre a obra.
Abre parêntese!
Primeiramente, essa obra é um romance de espaço.
Um o quê?
Um romance de espaço seria, segundo Aguiar e Silva (1968), um romance no qual o espaço praticamente age no texto tamanha é sua importância. O espaço de Vidas Secas é o antagonista de todo o texto, tudo que ocorre ali é causado pelo sertão. Se não fosse naquele espaço não haveria história, toda a questão política, cultural, geográfica, move os personagens.
Em segundo lugar, as personagens são planas, e antes que você possa me olhar com aquele olhar atravessado muito parecido com um ponto de interrogação explicarei. Aguiar e Silva classifica personagem plana como aquela que não apresenta nenhuma aprofundamento psicológico e que não altera sua forma de ser, de agir de pensar, permanecendo a mesma do início ao fim da história. As personagens em vidas secas não mudam seu modo de ser, sua vida é a mesma, seus desejos são os mesmos do começo ao fim.
Um outro ponto: As personagens não falam. Esta é uma das críticas presentes na obra: o sertanejo não consegue se expressar, não consegue se defender, agredir nem se fazer entender através da linguagem. Mas como assim, eu li Vidas Secas e tenho certeza de que Fabiano fala a obra inteira. Isso é um recurso utilizado de uma forma belíssima por Graciliano Ramos: o discurso indireto livre. O autor coloca as palavras dos personagens no meio da fala do narrador sem aspas, travessão ou expressões como “falou”, “disse”, etc.
Fecha Parêntese!
Para que isso? E onde isso se relaciona com o diálogo? A desculpe se, ao contrário de Graciliano, me enrolei nas palavras e escrevi além do necessário. Mas esses pontos serão extremamente importantes para o entendimento do que vem a seguir – bom creio eu que serão. Talvez ao ler você ache totalmente sem necessidade. Então quando for recomendar esse texto a alguém você poderá recomendar a pessoa que pule este parêntese. O autor abre diálogo com vários temas. Se me fosse dado a possibilidade de eleger alguns para discussão eu colocaria em primeiro lugar a questão do poder intelectual. A todo o momento Fabiano se compara com alguns personagens, que não aparecem no decorrer da obra, e que por deterem o domínio da linguagem conseguem ter uma vida melhor que a dele. Fabiano, assim como os outros personagens humanos, é trazido ao nível de um animal, e é assim que ele se sente. Ele se sente o tempo todo roubado, enganado, diminuído seja pelo poder patronal – as contas do patrão nunca batem com a de Sinhá Vitória – seja pelo poder político – ele não consegue nem ao menos vender suas coisas na cidade pois tem que pagar exorbitantes impostos – ou pelo poder policial – o soldado amarelo o agride, o prende – e ele não pode nem revidar pois não é nada mais que um bruto, um bicho. Para tornar seus personagens mais próximos de algo real o autor faz uso do fluxo de consciência, técnica que ao ser utilizada representa os conteúdos e processos psíquicos da personagem, como nos diz Humphrey (1976). O fluxo de consciência pode ser formado por até quatro técnicas: monólogo interior direto, monólogo interior indireto, solilóquio e descrição de autor onisciente, sendo esta ultima a única obrigatória para existir o fluxo de consciência. Em vidas secas encontramos o fluxo de consciência através das formas de monólogo interior indireto e descrição de autor onisciente. Um exemplo ótimo de fluxo de consciência é o final do capítulo Baleia, onde a pobrezinha agoniza com pensamentos soltos, que realmente parecem ser produzidos em um pensamento de alguém agonizante.
Para fechar esse texto não poderia deixar de dizer que Vidas Secas é um romance pertencente ao Regionalismo de 30, uma época cheia de conflitos, de polarização entre esquerda e direita. É o romance chamado de Neo-Realista, onde as desigualdades sociais aparecem, por isso o retrato da vida como ela ocorre no sertão, por isso esse diálogo, por isso a escrita simplista. E antes que você comece a bocejar me despeço com um até breve e o desejo que tenha sido claro em minhas idéias.
Aroldo Pereira da Rosa - O Chiste
*Aroldo Pereira da Rosa escreveu este texto para um trabalho de Literatura Brasileira.