Eu estava parado na porta da loja onde trabalhava em 2007 quando um carro ignorou a placa de PARE e atingiu um motociclista que guiava sua moto pela Av. Brasil. Felizmente o rapaz não sofreu nada sério, a pessoa do carro também estava bem.
Essa cena em questão ficou marcada na minha memória, pois eu havia sofrido um acidente alguns meses antes. Fiquei pensando se o rapaz seria levado ao mesmo hospital que eu e sofreria um tratamento parecido.
Escrevi em um texto algum tempo atrás que nunca me senti gente em um hospital. Podem me chamar de resmungão, chorão (admito que eu o seja muitas vezes), mas a forma como as pessoas são tratadas deixa muito a desejar.
Mas vamos fazer da seguinte forma: eu lhes contarei minha indignante história, e vocês tirarão suas conclusões.
Eu colidi com um senhor septuagenário levemente alcoolizado que guiava uma bicicleta no meio da rua. A imprudência foi dele, mas acredito que hoje com algum tempo a mais de experiência eu teria evitado o acidente (fazia apenas uma semana que eu tirara a habilitação). Como qualquer jovem imaturo que acaba de se envolver em uma colisão com vítima fiz tudo o que não podia: levantei, corri, pulei, gritei, fui até o velhinho, tentei conversar com ele. Meus ferimentos não eram aparentemente graves: eu tinha um corte fundo no joelho, meu tênis direito esmigalhou durante os dez metros que arrastei e minha mão direita tinha um bom pedaço de pele pendurado, parecendo um toucinho.
Em poucos minutos o socorro chegou. Conversei com um dos bombeiros sobre o acidente, expliquei o que havia acontecido. Segundo ele o senhorzinho estava bem.
- Agora é ir ver como está o motoqueiro... Ele está embaixo da moto ou deitado em algum lugar?
- Mas... sou eu...
Sim, eu conversei durante uns cinco minutos com o indivíduo e ele não percebeu que era eu o motociclista. Eu mostrei meus hematomas e ele me perguntou se eu queria ir para o hospital. Era óbvio que eu não queria. Eu perguntei se era necessário, e ele disse que eu deveria decidir.
Aconselhado pelos transeuntes eu concordei em ir com os bombeiros. Fui levado ao hospital.
Foi um passeio muito interessante. Eu estava deitado em uma maca e em outra estava o ciclista idoso. Havia ainda mais dois bombeiros dentro do mesmo espaço. Um perguntava e o outro anotava. Em determinado momento o que perguntava exclamou:
- É acho que você perdeu uma calça...
- Que nada, ta na moda usar calça rasgada no joelho...
Chegamos ao hospital. Tirei radiografias. Nenhum osso quebrado. Ficaram na sala comigo dois enfermeiros: um homem e uma mulher, pouca coisa mais velhos que eu.
- Olha o joelho que feio.
- A, mas olha só a mão dele.
- O joelho está pior...
- Não a mão é que está
Eles discutiram isso um pouco depois disseram que logo viria alguém fazer a limpeza dos ferimentos. Depois de uns minutos entrou o rapaz do raio-x, trazendo o senhor/ciclista/bêbado/idoso/motivo de minha internação com ele. Ele não parecia estar nada bem.
- Como ele está?
- Como se tivesse sido atropelado...
Essa resposta aconteceu, e foi emitida pelo rapaz do raio-x. O enfermeiro o olhou de cara feia e explicou que apesar de não parecer ele estava bem. Após estas palavras o velho começou a ter uma convulsão e entrou em coma.
Após a movimentação de levar o pobre homem para a UTI, estávamos mais uma vez eu, os dois enfermeiros e o rapaz do raio-x naquela sala. O último não parecia ter nada para fazer, os enfermeiros mexiam com curativos, gases e coisas assim e eu esperava alguém limpar meus machucados para poder ir para o quarto. E sem um motivo aparente o responsável pelas radiografias exclamou:
- Pô cara... se o véio morrer é culpa sua em...
O enfermeiro exclamou uma palavra de baixo calão para retirar o excesso de peso dali, todos saíram e eu mais uma vez fiquei só. Estava estressado, queria poder ir para um quarto, quem sabe tomar um banho... Não via a hora de entrar alguém ali pra me libertar. Porém quando veio...
Cena1: Pense bem antes de prestar vestibular
Entra uma enfermeira... com todos os apetrechos... olha para o meu joelho, faz cara de nojo...
- Eu não posso fazer isso... ai que horrível...
E sai chorando...
Não, não é mentira. Isso aconteceu... Vamos para a próxima cena.
Cena2: O título seria um palavrão por isso não será escrito aqui
Entra outra enfermeira. Ela olhou para meus machucados e não saiu correndo... Fiquei tão feliz por isso... Como a felicidade é um sentimento ilusório às vezes.
- O seu joelho está muito machucado. Acho que o mais indicado é você mesmo limpar depois, ou eu vou acabar te machucando.
- Na sua mão eu vou passar um anestésico de 5%. E essa pele pendurada, ummm... eu não trouxe nada pra cortar... Ah eu arranco com a pinça.
Em primeiro lugar... não sei quem inventou o anestésico de 5%... mas vai te catar. Ela espirrou aquilo na minha mão, ardeu de sair lágrima...
Então ela cumpriu a segunda brilhante idéia... arrancar a pele pendurada com a pinça. Não vou dizer que doeu, não quero resmungar. Depois disso ela fez a limpeza, prendeu um pedaço de gaze a pinça e esfregou na minha mão. Não preciso dizer que a gaze não valeu de nada e era como se ela esfregasse uma agulha na minha mão.
Afinal fui levado ao quarto...
Como é possível perceber não foi uma tarde muito agradável. Espero que o rapaz que foi acertado por um carro no começo dessa história tenha recebido um atendimento melhor.
Aroldo Pereira da Rosa - O Chiste
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