quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Sinal vermelho

Sinal vermelho!

A sensação era ótima. Liberdade pura. Não havia outra forma de definir o sentimento que invadia sua alma naquele momento. Um garoto que não devia ter muito mais do que dezoito anos, acelerando o tempo todo como que para todos verem que ele estava ali... em cima de sua moto indo para a casa da namorada...

Até uns tempos atrás você não o veria tão feliz... tinha reprovado em seu primeiro vestibular, um golpe muito forte para quem tinha absoluta certeza de como sua vida transcorreria depois do ensino médio. Vários amigos haviam conseguido entrar na tão sonhada universidade e estavam festejando, enquanto ele compartilhava uma sala de cursinho com mais alguns desafortunados. Foi ali que ele a conheceu... Antes dela nenhuma garota havia demonstrado interesse por ele... um nerd baixinho e cheio de espinhas... mas ela leu através disso... Era algo inacreditável... Tudo parecia dar certo depois dela... Passou no vestibular, tirou a carteira de motorista... ganhou uma moto do pai...

Era a primeira volta que ele dava em sua moto nova... não tinha contado pra ela ainda, queria fazer uma surpresa. Ainda nem abastecera a moto, ela estava com o pouco de combustível que eles colocaram na concessionária, uma quantidade tão pequena que enquanto esperava o semáforo abrir – acelerando ansiosamente – a moto entrou na reserva. Girou a pequena chave na parte inferior do tanque de gasolina – lado esquerdo de quem esta montado – e pisou com força o pedal de ignição... não funcionou. Tentou mais uma vez, ainda faltava prática... funcionou.

“Tenho que passar no posto”.

Finalmente o sinal abriu. Acelerou, soltou levemente a embreagem, ergueu o pé do chão... saiu com classe, acelerou firme... mudou a marcha... mais uma aceleração, engatou a terceira... a moto acelerava com graça e força... ele sentia que nascera para pilotá-la. O vento entrava pela viseira de seu capacete, “logo logo eu chego”...

Um senhor embriagado guiando uma bicicleta trouxe seu pensamento de volta ao chão... Foi uma sequência muito rápida mas que para ele passou como em câmera lenta... a bicicleta que estava sendo guiada pela margem direita da rua parecia não obedecer mais seu dono, uma vez que vinha de forma violenta para o meio da rua não importando o quanto seu bravo piloto pendesse o corpo para a direita ou tentasse virar seu guidão. O pânico se instaurou pelo garoto, queria frear mais sua mão congelara no acelerador, não conseguia tampouco mudar a direção da motocicleta, que parecia compartilhar com a bicicleta a mesma atração pelo centro da rua... Em meio a gritos um choque ocorreu...

O garoto viu o rosto assustado do velho homem, com seus olhos arregalados, uns dois metros antes de acertar a roda dianteira de uma bicicleta muito enferrujada... após o impacto a moto desequilibrou, vários palavrões ficaram presos dentro do capacete pois a viseira abaixara... a motocicleta pendera para a esquerda, o joelho do jovem tocou o asfalto seguido por sua mão e o resto de seu corpo... a perna esquerda – a do joelho que tocara o asfalto – ficou presa sob a moto durante o arrastar... o capacete mal amarrado foi se soltando... soltando... até que foi visto rolando para o lado oposto ao acontecido, como se quisesse se abster da visão. A cabeça desprotegida encontrou o asfalto...

Um rastro de cabelo e sangue levava até um garoto estirado sob uma motocicleta azul... as pessoas ao redor olhavam assustadas... o rapaz tinha tentado levantar mas alguém correu ao seu encontro e o forçou a ficar deitado, “ei, se mexer só vai piorar... fica quietinho, a ambulância já está chegando”... Mas ele não podia ouvir... as vozes ao seu redor estavam estranhas... não conseguia distinguir as pessoas, só via vultos escuros... O que será que tinha acontecido ao velho... tentou olhar ao redor mas a cabeça pesava muito... o vento era gelado... seu corpo de repente perdeu o peso... as vozes ao seu redor foram cessando... o medo foi abandonando-o, e apenas o que restava era o vento gelado que tocava seu rosto... sentia-se livre... a sensação era ótima...

Em uma esquina próxima o sinal fechou...


Aroldo Pereira da Rosa – O Chiste


*Aroldo Pereira da Rosa é apaixonado por motos e já sofreu um acidente, mas sobreviveu para poder continuar entupindo a internet de textos sem fundamento

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