quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Personificação ou Prosopopeia

Olhou para o relógio. O tempo não passava. Teve a impressão de que o ponteiro dos segundos estava girando ao contrário. Devia ser implicância, não gostava daquele pequeno mecanismo infernal que governava a vida dos pobres seres humanos.

Olhou desconsolado para o teto, não podia ficar o dia inteiro vigiando o relógio... faltavam ainda duas horas para ir embora... isso se o maldito marcador não começasse a voltar o tempo. Bobagem, foi uma simples ilusão de ótica.

Levantou de sua cadeira, deu uma olhada ao seu redor, janelas, mesa, um pequeno sofá no canto direito. Encarou o relógio com a melhor cara de mau que conseguia fazer... o espertinho trabalhava na direção correta. Havia se passado um minuto, somente um minuto. Uma vez leu em algum lugar que o tempo era psicológico, ficou pensando qual seria a reação do chefe se lhe dissesse que psicologicamente já havia dado a hora de ir embora. Era provável que ele o mandaria de volta para a sala, o maldito empregador não tinha a menor sensibilidade para entender de assuntos psicológicos.

Cruzou a porta em direção a máquina de café, encheu um copo grande e voltou a sala. “Melhor ficar de olho no relógio”. Sentou-se enquanto dava pequenos goles na bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro... Encarou o relógio sem acreditar no que via. O arremedo de Big Ben estava calmamente rodando seus ponteiros ao contrário, além de que agora parecia dotado de olhos e um sorriso que se erguia maquiavélico do 9 ao 3. Esfregou e apertou os olhos com força, devia ser aquele mormaço da tarde que estava causando o delírio. Porém, ao abri-los novamente o sorriso lunático continuava esculpido no outrora sisudo aparelho, dando forma a uma careta horrenda. Levantou-se de um salto em direção a pequena comoda onde o ser prosopopeico se encontrava, porém este saltou de sua base e disparou em corrida, cada vez girando mais rápido seus ponteiros para o lado oposto ao que os relógios normalmente giram. Iniciaram uma corrida de obstáculos pelos corredores do escritório.

As pessoas corriam para a porta de suas salas ao ouvir semelhante estardalhaço. Olhou pela janela e contemplou horrorizado que a medida que o relógio realizava a angustiante tarefa de girar ao contrário o próprio sol fazia o caminho inverso... voltou o olhar para o relógio central: o mesmo já marcava nove horas da manhã, e continuava voltando, porém não possuía olhos ou sorriso maldoso. Nesse intervalo no qual observava os efeitos ao seu redor perdeu de vista o pequeno ente endemoniado. Correu os olhos mais uma vez ao redor e localizou-o. Estava utilizando os ponteiros para abrir uma janela.

Começou uma corrida desenfreada em direção a abertura no elemento de vedação arquitetônica, porém pressentia que não havia mais solução. Estava a poucos metros... Contrariando por um instante a todos os maus pressentimentos ele acreditou que conseguiria... só não contava com o aparecimento de Dona Gertrudes que atraída pela algazarra saíra de sua sala no exato momento em que ele estava chegando a janela... uma colisão ocorreu levando os dois seres humanos ao chão. O pequenino relógio olhou-o, possuía um sorriso satânico que foi seguido de uma gargalhada infernal. “NÃOOOOOOOOOO!!” Mas não havia nada que pudesse ser feito, o mecanismo saltara pela janela e se esborrachara na calçada. Só restava agora reviver aquele dia maçante, e ficar vigiando atentamente os outros relógios.

Aroldo Pereira da Rosa - O Chiste


*Aroldo Pereira da Rosa é aluno do curso de letras da UEM, porém não é uma gramática humana e pode cometer erros. Ele não fará aqui nenhum comentário sobre o texto.

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