Ao pisar a calçada do outro lado sentiu uma sensação de alegria, euforia... mas logo ela foi posta de lado... ficou parada contemplando o prédio a sua frente, era alto e muito bonito, com muitas e grandes janelas, duas torres e, no meio bem acima da porta central, um grande relógio... Sentiu vontade de ir até lá, ver por dentro... já havia visto milhares de vezes aquele local, era sempre o seu destino final após atravessar a rua, era a sua rotina, a sua sina... devia entrar lá.Mas de repente sentiu um sentimento que a fez exitar... vinha crescendo dentro dela, não sabia se aparecera naquele momento ou se era resultado de sua vida inteira, mas somente naquele instante é que ela realmente sentiu a existência dele... Era calmo, como tudo em sua vida. Por um momento sentiu vergonha por pensar nele, olhou rapidamente com seus olhinhos galináceos ao seu redor, como se alguém pudesse ouvir seus pensamentos e a censurar...
Afinal, porque precisava ela respeitar essa rotina... aquilo era atordoante, seu pequeno cérebro de ave não suportava aquele pensamento, afinal toda a sua vida fizera aquele percurso, aprendera aquilo com sua mãe... todo dia pela manhã ela pegava todos os pintinhos e os levava até ali... quase todos morreram atropelados, ela foi a única que aprendera o caminho e os macetes para se sobreviver durante o percurso. E até hoje ela continuava, mesmo depois que sua mãe virou aquela canja para o menino doente.
Enquanto pensava recomeçou a caminhar. Cada degrau era muito grande e ela tinha que dar pequenos pulos e abrir levemente as asas para não se cansar muito, eram pequenos vôos... quantas vezes quis ela voar de verdade mas por estar presa em sua pequena estrutura de galinha não podia liberar o seu espírito de pomba... a essas sim que são livres.
Chegou até o topo, vislumbrou a entrada, e bem ao fundo a imagem de um homem em uma cruz. Aquela imagem a fazia ter vários pensamentos. Uma vez a mãe a explicara quem era o homem, e o porque de ele estar ali naquela cruz... ela conseguiu sentir mais nojo ainda do ser humano do que no dia que descobriu que ela poderia a qualquer momento virar o prato do dia. O homem é desprezível...
Foi entrando o recinto, o pensamento continuava a confundir sua cabeça e seus sentimentos. Resolveu deixá-lo de lado e aproveitar a visita, já estava ali mesmo e de nada adiantava ficar se debatendo em dúvidas... fica pra amanhã cedo decidir... Principalmente porque algo lhe chamara a atenção quando entrara na igreja, a um canto havia vários animaizinhos, e no meio de vários homens com cajados nas mãos - além de outros que, como ela, possuíam asas - havia um casal e um lindo bebe. Aquela imagem a encheu de alegria, olhou pra fora e viu que em durante todo o seu caminhar se passou um dia inteiro... o sol já tinha se escondido e lindas luzes piscavam lá fora... Ela não caminhava até ali simplesmente por caminhar, sua mãe lhe ensinara os valores cristãos - tinha muita fé ela, e provavelmente hoje estava no céu a olhar por sua filha.
As celebrações era o que motivava a pequena galinhazinha a fazer todo dia o perigoso trajeto - perigoso pois tinha no caminho uma rua - e chegar até ali. E hoje era o dia da celebração que ela mais gostava, uma missa que começava mais tarde do que o normal... e que nós seres humanos apelidamos de "missa do galo".
Aroldo Pereira da Rosa - O Chiste
Afinal, porque precisava ela respeitar essa rotina... aquilo era atordoante, seu pequeno cérebro de ave não suportava aquele pensamento, afinal toda a sua vida fizera aquele percurso, aprendera aquilo com sua mãe... todo dia pela manhã ela pegava todos os pintinhos e os levava até ali... quase todos morreram atropelados, ela foi a única que aprendera o caminho e os macetes para se sobreviver durante o percurso. E até hoje ela continuava, mesmo depois que sua mãe virou aquela canja para o menino doente.
Enquanto pensava recomeçou a caminhar. Cada degrau era muito grande e ela tinha que dar pequenos pulos e abrir levemente as asas para não se cansar muito, eram pequenos vôos... quantas vezes quis ela voar de verdade mas por estar presa em sua pequena estrutura de galinha não podia liberar o seu espírito de pomba... a essas sim que são livres.
Chegou até o topo, vislumbrou a entrada, e bem ao fundo a imagem de um homem em uma cruz. Aquela imagem a fazia ter vários pensamentos. Uma vez a mãe a explicara quem era o homem, e o porque de ele estar ali naquela cruz... ela conseguiu sentir mais nojo ainda do ser humano do que no dia que descobriu que ela poderia a qualquer momento virar o prato do dia. O homem é desprezível...
Foi entrando o recinto, o pensamento continuava a confundir sua cabeça e seus sentimentos. Resolveu deixá-lo de lado e aproveitar a visita, já estava ali mesmo e de nada adiantava ficar se debatendo em dúvidas... fica pra amanhã cedo decidir... Principalmente porque algo lhe chamara a atenção quando entrara na igreja, a um canto havia vários animaizinhos, e no meio de vários homens com cajados nas mãos - além de outros que, como ela, possuíam asas - havia um casal e um lindo bebe. Aquela imagem a encheu de alegria, olhou pra fora e viu que em durante todo o seu caminhar se passou um dia inteiro... o sol já tinha se escondido e lindas luzes piscavam lá fora... Ela não caminhava até ali simplesmente por caminhar, sua mãe lhe ensinara os valores cristãos - tinha muita fé ela, e provavelmente hoje estava no céu a olhar por sua filha.
As celebrações era o que motivava a pequena galinhazinha a fazer todo dia o perigoso trajeto - perigoso pois tinha no caminho uma rua - e chegar até ali. E hoje era o dia da celebração que ela mais gostava, uma missa que começava mais tarde do que o normal... e que nós seres humanos apelidamos de "missa do galo".
Aroldo Pereira da Rosa - O Chiste
*Aroldo Pereira da Rosa teve um ótimo dia de folga hoje e esgotou toda a sua cota de textos envolvendo galinhas.
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